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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Saint-Saenz-Piano Concerto nº4 em dó op44

Em 1875,a 31 de outubro Saint-Saëns Piano estreia em Paris o seu Piano Concerto No. 4 em dó Op. 44, conduzido por Edouard Colonne, também  sendo solista.

 O concerto é dedicado a Anton Door, professor de piano no Conservatório de Viena. Continua a ser um dos concertos para piano mais populares de Saint-Saëns, perdendo apenas para o Concerto para piano nº 2 em sol menor.

é uma obra fascinante, muito menos tocada que o 2º, mas de uma complexidade e originalidade estrutural que a tornam singular dentro do repertório romântico.

Estrutura inovadora:

Diferente da forma tradicional em três movimentos, Saint-Saëns compôs este concerto em dois grandes movimentos, cada um subdividido internamente em várias seções contrastantes. Isso cria um fluxo contínuo, quase sinfônico, em que temas reaparecem e se transformam — algo que antecipa ideias cíclicas de compositores posteriores.

O piano como narrador e não apenas virtuose:
Aqui o piano não é só o instrumento solista que domina a orquestra — ele dialoga e tece texturas com ela. A escrita pianística é densa, mas não ostentatória; a virtuosidade é intelectual e arquitetônica, mais que pirotécnica.

Caráter e contraste:
O primeiro movimento começa quase como uma fuga barroca, com austeridade e contraponto, mas logo se abre em lirismo e dramatismo.
O segundo movimento, mais longo, alterna entre momentos de serenidade lírica e passagens impetuosas, mostrando aquele Saint-Saëns elegante, de ironia refinada e equilíbrio clássico — mesmo quando a emoção transborda.

Clima geral:

Menos teatral que o 2º Concerto, mas mais filosófico e interior, o 4º tem um ar de meditação sobre a forma e sobre o próprio diálogo entre o solista e o todo. É uma peça de maturidade (1875), composta no auge da segurança técnica e da consciência estética do compositor.  

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Verdi-Requiem 1967

o Requiem de Verdi tem uma estrutura monumental, fiel ao texto litúrgico tradicional da Missa pro defunctis, mas moldada com o drama e a teatralidade típicos de Verdi.

A obra está dividida em sete grandes partes, que por sua vez contêm seções internas distintas. Eis o mapa completo:


1. Requiem e Kyrie

  • “Requiem aeternam” — o coro sussurra uma prece pelos mortos, quase em murmúrio, num clima de piedade e penumbra.

  • “Kyrie eleison” — introdução dos quatro solistas (soprano, mezzo-soprano, tenor, baixo) em diálogo implorando misericórdia.
    👉 Função: abertura litúrgica, de súplica e recolhimento.


2. Dies Irae

A parte mais longa e dramática, verdadeira alma da obra. Divide-se em várias seções internas que descrevem o Juízo Final.

  • “Dies irae” — explosão apocalíptica; o terror do dia da ira divina.

  • “Tuba mirum” — fanfarras de trombetas chamam os mortos ao julgamento.

  • “Mors stupebit” — baixo solista descreve o espanto da morte.

  • “Liber scriptus” — mezzo-soprano canta o livro do destino, solene e profético.

  • “Quid sum miser” — trio dos solistas (soprano, mezzo e tenor) pergunta: “Que direi eu, miserável, quando o Juiz vier?”

  • “Rex tremendae” — invocação poderosa: “Rei de tremenda majestade.”

  • “Recordare” — dueto feminino de rara doçura, pedindo perdão.

  • “Ingemisco” — ária do tenor, plena de arrependimento e esperança.

  • “Confutatis” — o baixo implora para ser chamado entre os benditos.

  • “Lacrimosa” — coro e solistas se unem no lamento final, a humanidade inteira em lágrimas.
    👉 Função: descrição do julgamento e súplica pela salvação.


3. Offertorio

  • “Domine Jesu Christe” — súplica pelos mortos.

  • “Hostias” — trio sereno e suspenso, oferecendo o sacrifício por eles.
    👉 Função: intercessão pelos defuntos, de tom meditativo.


4. Sanctus

  • Canto fugado para duplo coro.
    👉 Função: celebração jubilosa e contrapontística — o louvor após a tempestade do Dies irae.


5. Agnus Dei

  • Dueto de soprano e mezzo-soprano com coro respondendo em ecos.
    👉 Função: pedido de paz e repouso eterno.


6. Lux Aeterna

  • Trio (mezzo, tenor e baixo) em atmosfera de luz e serenidade.
    👉 Função: evocação da luz eterna que guia as almas.


7. Libera me

  • O soprano domina.

  • Reaparece o tema do Dies irae, num último confronto com o medo.

  • Alternância entre terror e súplica até o final pianíssimo: “Libera me, Domine, de morte aeterna.”
    👉 Função: oração final — a alma, sozinha, diante de Deus.


A obra toda forma um arco dramático:
começa na escuridão (Requiem), passa pela tempestade (Dies irae), encontra respiro na fé (Offertorio, Sanctus, Agnus Dei, Lux Aeterna), e termina numa solidão comovente (Libera me).

É como se Verdi escrevesse não apenas uma missa, mas uma viagem espiritual, do medo à esperança, da carne à eternidade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Schubert-Sinfonia nº2 em si bemol maior D.125

Em 1877 a 20 de outubro,  Franz Schubert estreia em Berlim a sua Sinfonia nº2 em si bemol maior D.125 Aqui a interpretação é da Frankfurt Radio Symphony ∙ Andrés Orozco-Estrada, Dirigent ∙ 

Sinfonia n.º 2 é uma das obras orquestrais mais interessantes do seu período juvenil — composta em 1814–1815, quando ele tinha apenas 17 ou 18 anos. Embora ainda revele a influência forte de Haydn, Mozart e Beethoven, já se percebe nela uma voz própria, especialmente no tratamento melódico e no lirismo característico de Schubert.

I. Largo — Allegro vivace (Si bemol maior)

A introdução lenta (Largo) tem um caráter quase solene, abrindo espaço para um Allegro vivace leve, cheio de energia juvenil. Nota-se uma clara herança clássica — o uso de forma sonata é bastante disciplinado — mas Schubert tempera isso com melodias cantáveis e um sentido harmônico mais aventureiro do que era comum em Haydn, por exemplo. O desenvolvimento modula com liberdade surpreendente para um compositor tão jovem.

II. Andante (Mi bemol maior)

Este segundo movimento é uma série de variações sobre um tema simples e gracioso. Cada variação apresenta novas cores instrumentais e mudanças de caráter: ora delicado, ora mais vigoroso. Aqui Schubert mostra já um talento especial para orquestração clara e para melodias que parecem quase vocais, como se uma canção estivesse escondida na textura instrumental.

III. Menuetto: Allegro vivace — Trio (Si bemol maior / Sol menor)

O Minueto é ritmicamente incisivo e lembra bastante Beethoven nos seus scherzi iniciais, embora mantenha o título tradicional “Menuetto”. O Trio, em Sol menor, cria um contraste mais sombrio e dramático, antes do retorno ao clima mais jovial do Minueto. Aqui se nota um jogo expressivo entre luz e sombra que antecipa o Schubert maduro.

IV. Presto (Si bemol maior)

O Finale é vibrante, cheio de energia rítmica e vitalidade. A escrita orquestral é ágil, e Schubert mostra domínio da forma rondó-sonata, com um tema principal muito marcante. Há ecos do espírito lúdico de Haydn, mas com um colorido harmônico mais pessoal e fresco. É um desfecho alegre e brilhante, típico de uma sinfonia juvenil, mas tecnicamente muito bem construída.

Em contexto histórico e estilístico

  • A Sinfonia n.º 2 foi escrita pouco depois da n.º 1 (D. 82), ainda na Viena do pós-Napoleão.

  • Não foi publicada nem amplamente executada durante a vida de Schubert.

  • Orquestra clássica relativamente pequena, sem trombones (como nas sinfonias iniciais).

  • Mostra já a sua inclinação para o lirismo melódico, contrastando com a estrutura clássica herdada.

  • É uma obra excelente para perceber como Schubert assimila a tradição clássica e começa a transformá-la.

Em resumo:

A Sinfonia n.º 2 é uma obra juvenil, mas refinada, cheia de vitalidade, com momentos de genuíno lirismo schubertiano. Não tem o peso dramático das últimas sinfonias, mas tem um frescor e uma elegância que a tornam uma joia do repertório clássico inicial de Schubert..